Mensagem do dia

27 junho 2015

A DOR DO ABANDONO

Era uma manhã de sol quente e céu azul, quando o caixão contendo um corpo sem vida foi baixado à sepultura.
De quem se trata?
Quase ninguém sabe.
Poucas pessoas acompanham o féretro. Ninguém chora. Ninguém sentirá a falta dela. Ninguém para dizer adeus ou até breve.

Depois que o corpo desocupou o quarto do asilo, onde aquela mulher passou boa parte da sua vida, a responsável pela limpeza encontrou em uma gaveta ao lado da cama, umas anotações.
Um diário sobre a dor...
Sobre a dor que ela sentiu por ter sido abandonada pela família num lar para idosos... Talvez o sofrimento fosse muito maior, mas as palavras só permitem extravasar uma parte desse sentimento, gravadas em algumas frases:

Onde andarão meus filhos?
Aquelas crianças sorridentes que embalei em meu colo, alimentei com meu leite, cuidei com tanto desvelo, onde estarão?
Estarão tão ocupadas?
Talvez, que não possam me visitar, ao menos para dizer olá, mamãe?
Ah! Se eles soubessem como é triste sentir a dor do abandono... A mais deprimente solidão...

Se ao menos eu pudesse andar...
Mas dependo das mãos generosas dessas moças que me levam todos os dias para tomar sol no jardim... Jardim que já conheço como a palma da minha mão.

Os anos passam e meus filhos não entram por aquela porta, de braços abertos, para me envolver com carinho...
Os dias passam... E com eles a esperança se vai... No começo, a esperança me alimentava, ou eu a alimentava, não sei... Mas, agora... Como esquecer que fui esquecida?
Como engolir esse nó que teima em ficar em minha garganta, dia após dia?

Todas as lágrimas que chorei não foram suficientes para desfazê-lo. Sinto que o crepúsculo desta existência se aproxima...
Queria saber dos meus filhos...
Dos meus netos...
Será que ao menos se lembram de mim?
A esperança, agora, parece estar atrelada aos minutos... Que a arrastam sem misericórdia... para longe de mim.

Às vezes, em sonhos, vejo um lindo jardim...
É um jardim diferente, que transcende os muros deste albergue e se abre em caminhos floridos que levam a outra realidade, onde braços afetuosos me esperam com amor e alegria... Mas, quando eu acordo, é a minha realidade que eu vejo... Que eu vivo... Que eu sinto...

Um dia alguém me disse que a vida não se acaba num túmulo escuro e silencioso... Que a vida continua após a morte, de outra forma... Mas com certeza a minha matéria, a minha mente, o meu eu dessa vida que vivo agora, com o nome que tenho... Nunca mais existirá!
E quando a morte chegar, só restará a saudade que com o passar do tempo se ameniza...
(se é que alguém vai sentir saudade de mim, já que não sentem enquanto ainda estou viva neste asilo)

Sinto que a minha hora está chegando. Depois que eu partir, gostaria que alguém encontrasse essas minhas anotações e as divulgasse.
E que elas pudessem tocar os corações dos filhos que internam seus pais em asilos, e jamais os visitam...
Que eles possam saber um pouco sobre a dor de alguém que sente o que é ser abandonado... Pensar que a cada pai e a cada mãe Deus perguntará: "- O que fizestes do filho confiado a vossa guarda?"
E aos filhos: "- O que fizestes aos vossos pais?".
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       Cecilia Damazio

24 junho 2015

QUANDO VOCÊ FOI EMBORA...


"Pai, eu vou bem, eu vou indo..."

Olhei ao meu redor, mesmo tão pequenino entendi o que acontecera. Pude ver a todos porém dei por falta de você. Então chorei

Ainda lembro-me de  como vibramos com nossa seleção naquela Copa, mesmo na situação em que você se encontrava e eu sem noção do quanto aquele seu momento era delicado. Mamãe me poupou de te ver partir, e naqueles dias de férias da escola fiz a viagem que me isentaria de presenciar tal momento; no entanto tive que voltar naquele dia em que nosso time perdeu o jogo para a Argentina, saindo da Copa, enquanto sem eu saber você saia da vida.

Meus tios trouxeram-me para que me despedisse; seus amigos me confortaram dizendo que Papai do Céu cuidaria de mim a partir de então, e mesmo em sua despedida, só vim perceber o impacto daquele acontecimento quando chegamos em casa e você não estava.

Eu tive que prosseguir sem você. Restou-me a alegria de tê-lo comigo durante meus primeiros sete anos de vida e guardar no peito as lembranças do que vivenciamos juntos.

O tempo passou, e mediante tudo que passei eu muito venci. Estou cuidando de nossa rainha, da tia-avó e de nossas meninas (Diga-se de passagem que elas aumentaram nas gerações que seguiram após sua partida) mesmo tendo sido seu último rebento e ainda agreguei mais uma para fazer parte de nossa família. Estou fazendo o melhor que posso.
Fico feliz em saber o quanto sua fé cresceu e manifestou-se perante todos os que te acompanharam naqueles tristes dias. E por meio da minha creio que Deus o guardou para um dia, que tanto anseio, nos encontrar.
Tanto tempo já se foi desde aquele dia em que foi embora, mas o tempo não tirou você de mim, meu pai.

Escrito pelo meu filho no auge da nossa saudade.

In memorian José Carlos Bittencourt, o meu companheiro de jornada, falecido em 24/06/1990.
Com permissão do autor.
http://www.marcusbittencourt.com/
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23 junho 2015

O BRASIL CANTADO EM PROSA E VERSOS

Chega!
Que mundo é esse?
Eu me pergunto!

Chega!
Quero sorrir, mudar de assunto!
Falar de coisa boa
Mas na minha alma ecoa
Agora um grito
E eu acredito que você vai gritar junto!

A gente é saco de pancada
Há muito tempo e aceita
Porrada da esquerda
Porrada da direita
É tudo flagrante
Novas e velhas notícias
Mentiras verdadeiras
Verdades fictícias

Policia prende o bandido
Bandido volta pra pista
Bandido mata polícia
Polícia mata o surfista
O sangue foi do Ricardo
Podia ser do Medina
Podia ser do seu filho
Jogando bola na esquina

Morreu mais uma menina
Que falta de sorte
Não traficava cocaína
E recebeu pena de morte!
Mais uma bala perdida
Paciência
Pra ela ninguém fez nenhum pedido de clemência

Chega!
Que mundo é esse?
Eu me pergunto!

Chega!
Quero sorrir, mudar de assunto!
Falar de coisa boa
Mas na minha alma ecoa
Agora um grito
E eu acredito que você vai gritar junto!

Chega!
Vida de gado, resignado.
Chega!
Vida de escravo, de condenado.
A corda no pescoço do patrão e do empregado
Quem trabalha honestamente tá sempre sendo roubado

Chega!
Água que falta
Mágoa que sobra

Chega!
Bando de rato
Ninho de cobra

Chega!
Obras de milhões de reais
E milhões de pacientes
Sem lugar nos hospitais

Chega!
Falta comida
Sobra pimenta

Chega!
Repressão que não me representa
Chega!
Porrada pra quem ama esse país
E bilhões desviados
Debaixo do meu nariz

Chega!
Contas, taxas
Impostos, cobranças

Chega!
Tudo aumenta
Menos a esperança
Multas e pedágios
Para o cidadão normal
E perdão para empresas que cometem
Crime ambiental

Chega!
Um para o crack
Dois para cachaça

Chega!
Pânico
Morte
Dor e Desgraça

Chega!
Lei do mais forte
Lei da mordaça
Desce até o chão na alienação da massa.

Eu vou
Levanta o copo e vamos beber
Levanta o copo e vamos beber!
Eu vou
Levanta o copo e vamos beber!
Um brinde aos idiotas
Incluindo eu e você

Eu vou
Levanta o copo e vamos beber
Levanta o copo e vamos beber!
Eu vou, agora eu vou
Levanta o copo e vamos beber!
Um brinde aos idiotas
Incluindo eu e você

Democracia
Que democracia é essa?
O seu direito acaba onde começa o meu
Mas onde o meu começa?
Os ratos fazem a ratoeira e a gente cai
Cada centavo dos bilhões é da carteira aqui que sai

E a gente paga juros
Paga entrada e prestação
Paga a conta pela falta de saúde e educação
Paga caro pela água, pelo gás, pela luz
Pela paz, pelo crime
Por Alá, por Jesus

Paga imposto
Paga taxa
Aumento do Transporte
Paga crise na Europa
E na América do Norte
Os assassinos na FEBEM
O trabalho infantil na China
E as empresas e os partidos envolvidos em propinas

Chega!
Que mundo é esse?
Eu me pergunto!
Chega!
Quero fugir, mudar de assunto!
Falar de coisa boa
Mas na minha alma ecoa
Agora um grito
E eu acredito que você vai gritar junto!

Chega!
Vida de gado, resignado

Chega!
Vida de escravo, de condenado
A corda no pescoço do patrão e do empregado
Quem trabalha honestamente tá sempre sendo roubado

Presidente
Deputados
Senadores
Prefeitos
Governadores
Secretários
Vereadores
Juízes
Procuradores
Promotores
Delegados
Inspetores
Diretores
Um recado pra senhoras e os senhores

Eu pago por tudo isso
Imposto sobre serviço
A taxa sobre produto
Eu pago no meu tributo

Pago pra andar na rua
Pago pra entrar em casa
Pago pra não entrar no SPC e no SERASA
Pago estacionamento, taxa de licenciamento
Taxa de funcionamento, liberação e alvará

Passagem
Bagagem
Pesagem
Postagem
Imposto sobre importação e exportação
IPTU E IPVA
O IR, O FGTS, O INSS, O IOF, O IPI, O PIS, O COFINS E O PASEP

Construção do estádio
O operário e o cimento
Eu pago o caveirão
A gasolina e o armamento
A comida do presídio
O colchão incendiado
Eu pago o subsídio absurdo dos deputados

A esmola dos professores
E escola sucateada
O pão de cada merenda
Eu pago o chão da estrada
A compra de cada poste
Eu pago a urna eletrônica
E cada árvore morta
Na nossa Selva Amazônica

Eu pago a conta do SUS
E cada medicamento
A maca que leva os mortos na falta de atendimento
Paguei ontem
Paguei hoje
E amanhã vou pagar
Me respeita!
Eu sou o dono desse lugar

Chega!
 photo assinatura_7_zpsff26786e.gifChega
Gabriel O Pensador
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