Mensagem do dia

19 maio 2019

Conselhos de um geriatra

Estamos envelhecendo.
Não nos preocupemos! 
De que adianta, é assim mesmo.
 Isso é um processo natural. 
É uma lei do Universo conhecida como a 2ª Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia.

Essa lei diz que: “A energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta”. Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído, tudo foi feito para acabar. 
Como fazemos parte do universo, essa lei também opera em nós.
Com o tempo, os membros se enfraquecem, os sentidos se embotam. Sendo assim, relaxe e aproveite.
Parafraseando Freud: “A morte é o alvo de tudo que vive”.

O conselho é: Viva! Faça apenas isso. Preocupe-se com um dia de cada vez. Como disse um dos meus amigos a sua esposa: “me use, estou acabando!”. Hilário, porém realista.

Ficar velho e cheio de rugas é natural. 
Não queira ser jovem novamente, você já foi.
Pare de evocar lembranças de romances mortos, vai se ferir com a dor que a si próprio inflige.
Já viveu essa fase, reconcilie-se com a sua situação e permita que o passado se torne passado. 
Esse é o pré-requisito da felicidade.

“O passado é lenha calcinada. 
O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto” como já dizia Cícero.

Abra a mão daquela beleza exuberante, da memória infalível, da ausência da barriguinha, da vasta cabeleira e do alto desempenho, pra não se tornar caricatura de si mesmo. Fazendo isso ganhará qualidade de vida.

Querer reconquistar esse passado seria um retrocesso e o preço a ser pago será muito elevado. Serão muitas plásticas, muitos riscos e mesmo assim você verá que não ficou como outrora. 
A flor da idade ficou no pó da estrada. 
Então, para que se preocupar?! 
Guarda os bisturis e toca a vida.

Essa resistência em aceitar as leis da natureza acaba espalhando sofrimento por todos os cantos. Advêm consequências desastrosas quando se busca a mocidade eterna, as infinitas paixões, os prazeres sutis e secretos, as loucas alegrias e os desenfreados prazeres.

Isso se transforma numa dor que você não tem como aliviar e condena à ruína sua própria alma.

Discreto, sem barulho ou alarde, aceite as imposições da natureza e viva a sua fase. Sofrer é tentar resgatar algo que deveria ter vivido e não viveu. Se não viveu na fase devida, o melhor a fazer é esquecer.

Você não tem de experimentar todas as coisas, passar por todas as estradas e conhecer todas as cidades. Isso é loucura, é exagero. Faça o que pode ser feito com o que está disponível.

Quer um conselho? Esqueça. Para o seu bem, esqueça o que passou. Tem tantas coisas interessantes para se viver na fase em que está. Coisas do passado não te pertencem mais.

Celebre a vida, agora você tem mais tempo, aproveite essa disponibilidade e desfrute. Aceitando ou não, o processo vai continuar. Assuma viver com dignidade e nobreza a partir de agora. Nada nos pertence.

O que importa é o que está dentro de nós, a velha máxima continua atual como nunca: “quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”.
Esse é o segredo de uma boa vida.
Dr. Joston Miguel

03 maio 2019

Um breve inventário de suspiros lá na minha terra.


Lá eu comi, rezei, amei.
Provei pititinga, umbu, mangaba, baião de dois, carne de fumeiro, farinha em todas as refeições.

Aprendi que punhetinha não é sem-vergonhice masculina, é o doce com canela mais bonito dos tabuleiros.
Manchei meu vestido de dendê.
Vesti branco para Oxalá nas sextas.
Vesti sol.

Vi o Ilê Ayê subindo a Ladeira do Curuzu, pensando que ele é mesmo O Mais Belo dos Belos. Recebi Nana como meu novo nome.
Calcei percatinhas na Ladeira do Couro.
Escrevi sete cartas de saudade e algumas dezenas de bilhetes.
Segui sambando, já que quem tem fé vai a pé, os oito quilômetros da Conceição da Praia até a Colina Sagrada, pedindo bênçãos ao Senhor do Bonfim nas escadarias banhadas com água de cheiro.
Descobri que “eu te amo você” é a melhor frase que uma boca pode pronunciar.

Fui ao Vila, velho! para aplaudir o teatro antropofágico.
Avistei caravelas sentada no topo do Morro do Cristo, mas era miragem.
Estudei o inestudável. Saí da fossa xingando em nagô.

Levei mudas de ipê e sibipiruna para plantar no Passeio Público. Pensei que esta cidade, feito a vida da gente, é caleidoscópica.
Fui pedida em namoro com o colar azul dos filhos de Gandhy. Aceitei.
Dancei forró em um quarto vazio.
Entendi que Magalhães é um sobrenome com passaporte ao céu e ao inferno.
Levei um puta dum calote.
Espiei a filmagem de uma cena de Ó Paí, Ó.
Soube que chegaria a hora de voltar pra Belo Horizonte.
Soube que meu namorado se mudaria pra Brasília.
Pesquisei a distância entre Belo Horizonte e Brasília.
Aprendi a lidar com mapas.
Tomei sorvete de coco queimado, mel e gengibre, nata goiaba, martinique.
Fiquei mordida de inveja todas as vezes em que ouvi Toda Menina Baiana e prometi a mim mesma que hei de ser mãe de uma.
Aprendi a gostar de pôr do sol.

Descobri que em 1668 um galeão naufragou perto do Rio Vermelho e que encontraram um pingente de azeviche, decerto de um marinheiro, com Luysa gravado dentro de um coração.
Me senti como Luysa, esperando um marinheiro no cais.
Chorei por Luysa e pelo marinheiro, quase 350 anos depois.
Compus uma canção sobre Luysa e o marinheiro.

Assisti à missa das dez do domingo no Mosteiro de São Bento, muito tentada a pecar ao som do canto gregoriano dos monges.
Vibrei música na Concha Acústica.

Conheci a santa palavra de Edson Gomes e também chamei a liberdade de Lili, dona Lili.
Conheci gente de derreter o peito.
Entendi que sou jovem, morena, cintura fina e quadris largos, e que este é o maior milagre temporário que existe.

Brinquei o carnaval do Pelô nas ruas de pedras de dor e alegria. Espirrei durante um dia inteiro, alérgica e alegre, nos sebos e antiquários da rua Rui Barbosa.

Gritei “bora Bahêa” esperando alguém completar com “minha porra”. Joguei flores nas águas na aurora do 2 de fevereiro para saudar Iemanjá, Inaê, Janaína, Dandalunda, Princesa de Aiocá, invocando todos os seus nomes.

Ouvi blues no D’Veneta.
Olhei nos olhos da morte depois de beber Príncipe Maluco.
Temi o mar. Desejei o mar.

Misturei cheiro de sal ao meu cheiro de minério de ferro.
Mas, sobretudo: houve (e há) um baiano comigo.
“Porque ainda que eu cantasse como Maria Bethânia e guerreasse como Maria Quitéria, ainda que eu cozinhasse como Dadá e pintasse como Carybé, ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.”  

Quer saber onde é lá?
Só pode ser em Salvador/ Bahia. 
(MARIANA CARDOSO DE CARVALHO)


25 março 2019

O que você herdou dos seus filhos?




Eu herdei paciência
Capacidade de suportar desorganização e caos
Frieza pra lidar em situações críticas
Herdei medo de morrer
Medo de trânsito
Medo da noite
E o único medo de perder verdadeiro

Mas herdei coragem também... Muita
Com filhos, herdei a necessidade de desacelerar,
A atenção difusa
E a sagacidade para responder questões difíceis

Eu herdei vontade de montar árvores de natal, de aprender a fazer bolo de festa e assistir desenho animado...
A capacidade de fazer remédio a partir de beijo, desespero e lágrimas.

Herdei rugas, varizes, olheiras e estrias, mas também as gargalhadas mais incríveis.
Herdei emoções colhidas nas coisas mais bobas.
 
Herdei força sobre-humana, sentidos mais apurados,
um grito que se acha poderoso o suficiente para parar um trem!!! Rsrs

Herdei uma capacidade ilimitada de sentir culpa
E o cacoete irremediável de sempre olhar quando alguém grita "Mãe!!! “

Rita Almeida

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